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Imagem da Justiça: significado.

Autor: Sebastião Fabiano Pinto Marques
São João del-Rei, MG

 

Deusa Justitia ou Thêmis: Justiça: porque a mulher com a espada a simboliza? segundo os antigos gregos

Deusa Justitia ou Thêmis segundo os antigos gregos: por que a mulher com a espada a simboliza?

A origem do símbolo

A Justiça foi conhecida na Grécia antiga pelo nome de Thêmis e em Roma pelo nome de Justitia. Thêmis é filha de Urano e de Gaia, é a segunda mulher de Zeus. Foi gerada pelas Moiras junto com Nêmesis, — a deusa da Ética. Não é coincidência. É proposital. E serve para que lembremos de que a Justiça nasceu junto com a Ética e dela é indissociável!

A Justiça, essa divindade temível, era representada até o sec. XIX como uma mulher em pé, de olhos abertos, e espada em riste. O simbolismo era tão forte que até nas representações cristãs barrocas o padrão se repetia com insistência. Quando muito, havia discrepância apenas quanto ao sexo de quem empunhava a espada e a balança por razões de dogmática cristã como vemos nesta imagem barroca em Ouro Preto, MG:

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Estátua localizada no Museu da Inconfidência em Ouro Preto, MG.

Significado da imagem da justiça original

Cada detalhe desse símbolo tem um motivo. A Justiça era representada em pé, jamais sentada porque ela é ação, atitude. Estar sentada significaria sua negação, pois daria impressão de que ela não está pronta para agir diante do que lhe aparece. Portanto, ela estava sempre de pé, com uma perna flexionada para frente e outra levemente para trás, ou seja: prontíssima para se defender e atacar a qualquer sinal de ameça ou de desobediência.

Deusa Justitia ou Thêmis

Deusa Justitia ou Thêmis

Thêmis não tinha vendas nos olhos. Ela via tudo, ouvia tudo, percebia tudo na mais íntima profundidade. Aliás, ela não tinha nem sobrancelhas, nem cílios, nem pálpebras, pois ela jamais dormia nem se sentia incomodada pelo excesso ou falta de luz. Incansável, seu olhar penetrava tudo. Era impossível esconder a verdade diante dela.

Thêmis era representada sempre atenta e ciente.

Na imagem original, a espada de Thêmis estava sempre em riste, preparada para golpear imediatamente os que não se adequassem aos ditames da Justiça ou se defender contra eventuais inimigos.

A balança estava sempre posicionada logo acima do punho da espada. Isso indicava que a força que ela detinha subordinava-se totalmente às leis universais do equilíbrio ditadas pelo pai Urano e pela mãe Gaia, enfim: pela Sabedoria e pelo Entendimento! E também indica as qualidades da Justiça.

De sua mãe, Gaia, ela herdara a estabilidade, a solidez e a segurança vitais para a vida organizada e saudável em qualquer sociedade. De seu pai Urano, ela herdara a Força e a Ação indispensáveis para que a Justiça tenha efetividade em qualquer lugar.

A Justiça é a mãe das Horas, outras divindades gregas. E não é em vão. Significa abertamente que ela é o fundamento da progressão temporal ordenada em todas as sociedades. Sem a Justiça, tudo, até o tempo, dissolve-se em caos. Os gregos representaram a Deusa Thêmis numa constelação, hoje conhecida como Libra, a mesma do famoso signo zodiacal.

A Justiça vestia-se de branco porque ela era pura. Ela não mostrava suas partes íntimas como outras deusas porque ela era imaculada. Uma espécie de mãe virginal que apesar de ter tido filhos, permanecia intocada, inviolada. Simbolismo semelhante ao da Santíssima Virgem Cristã.

A mudança do simbolismo original da Justiça

A representação dessa Deusa tão augusta só mudou no séc. XIX com a predominância da mentalidade positivista.

O positivismo acusou todos mitos de serem “falsos” e “supersticiosos”. Eles entendiam por superstição tudo que não se enquadrava no limitado “método científico”, ainda aceito por muitos como a “única forma” de conhecer o mundo.

Trata-se de uma verdadeira viseira de burro para se estudar a realidade. Quem conhece a viseira sabe que ela impede o animal de olhar para os lados e de se assustar com a diversidade que há no mundo. O assessório serve para impedir que o asno descubra a existência de outras coisas além da área de visão “permitida” pelo dono.

O positivismo pregava de modo fanático e insano a “supremacia da ciência”. Tanto que um de seus percussores, Auguste Comte, fundou a “religião da humanidade” colocando, literalmente, as ciências como “divindades”. Ele morreu louco, mas isso não impediu que muitos seguissem essa loucura.

O positivismo baseia-se no lema hegeliano de que “todo real é racional” e de que “todo racional é real”. Ou seja: para os seguidores da religião da razão, só é real o que a razão é capaz de explicar e conhecer. Da mesma forma, para eles, só é conhecível o que for racional.

Viseira de burro

Viseira de burro: ela é colocada sobre os olhos do animal para diminuir o campo de visão e evitar que ele se assuste com o visto ao redor.

Enfim: eles usam uma viseira de burro chamada de método científico. Se o objeto a ser estudado não se conformar aos padrões que eles adotam como “racionais”, eles simplesmente ignoram o estudo em questão.

Se uma roupa começar a pegar fogo dentro de um balde cheio de água numa residência, eles simplesmente vão ignorar o fato. Vão dizer que isso não é real porque não é racional. Que foi um desvio padrão da regra de que coisas não pegam fogo dentro da água entre as temperaturas x e y. E pronto, ficará por isso mesmo

É nesse sentido que o método deles funciona como uma viseira de burro: se o objeto de estudo não se adequar aos critérios, eles o ignoram como se não existisse, assim como o burro ignora tudo que está tapado pela viseira.

E se você insistir com eles em qualquer estudo que a razão não compreenda, eles vão te tachar de “supersticioso”, “empírico”, “ignorante” e outros preconceitos mais. Eles até lembram os católicos medievais acusando tudo e todos de “heréticos”, “blasfemos” só por ousaram discordar do que eles acreditavam como o certo.

O mesmo eles fazem em relação ao estudo do significado dos símbolos das religiões antigas e os produzidos pelo inconsciente humano. Por não compreendê-los devido a limitação do método utilizado, simplesmente os desprezaram como se eles fossem aleatórios e arbitrários.

Como reflexo dessa mentalidade limitada que ainda vigora em vários lugares, os positivistas alemães, a partir do séc. XIX, mudaram a imagem da Justiça para se tornar mais “racional” e “moderna” conforme o pensamento deles. E, ironicamente, deram-lha uma venda, semelhante a da viseira de asno com a qual formularam o “método científico”, sob a tosca desculpa de que isso a tornaria “imparcial”.

O simbolismo da imagem da justiça brasileira

O escultor Alfredo Ceschiatti captou com perfeição as características da justiça brasileira e as materializou numa estátua atualmente posicionada na porta do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte de Justiça do Brasil.

Talvez o escultor não tivesse consciência do significado desse símbolo, tendo em vista que o artista coloca para fora o que sente de forma inconsciente e difusa, conforme explicado pelo psicanalista Carl Gustav Jung em várias de suas obras.

Hoje, irônica e tragicamente, o Brasil tem uma imagem da deusa Justiça fiel ao monstro que a república positivista gerou.

A Justiça segundo os neopositivistas brasileiros

A Justiça segundo os neopositivistas brasileiros

Temos uma justiça cegada de propósito com uma venda nos olhos, incapaz de penetrar fundo nas coisas. Em outras palavras: superficial e, consequentemente, fácil de ludibriar.

Uma justiça sentada, ou seja: passiva, sem ação, lenta, incapaz de agir rápido diante dos fatos que lhe aparecem.

Uma justiça com a espada abaixada, em outras palavras: sem poder, sem efetividade, sem capacidade de impor suas decisões prontamente, nem de se defender contra os ataques infligidos a ela.

Uma justiça semi-nua, de seios à mostra, disponível a qualquer aventureiro que queira usá-la para finalidades indignas.

E mais. É a imagem de uma justiça sem forma humana, estranha aos homens, afastada deles, incompreensível e insensível aos seres humanos comuns. Uma imagem de formas desproporcionais, onde curvas e retas lembram mais um golem do que um ser humano.

É a justiça de um estado deformado, desviado de sua finalidade e distante da realidade.

É a imagem de uma justiça desfigurada por uma razão prepotente que a separou de sua irmã gêmea, a Ética. Enfim: uma justiça que esqueceu de suas fontes, de sua história e do que ela devia representar.

E, o pior: uma justiça que substituiu a balança pelos próprios seios! Ou seja: uma justiça guiada pela lascívia, achegada ao luxo e propensa a se prostituir. Uma justiça sem sua alma.

Os símbolos são produtos do inconsciente e revelam verdades muitas vezes ignoradas. Apesar de trágica, a estátua na porta do STF é testemunha da genialidade do escultor Alfredo Ceschiatti que foi capaz de sintetizar em um objeto as distorções de nossa Justiça.

Como citar este texto?

Nas referências bibliográficas:

MARQUES, Sebastião Fabiano Pinto (2013). Imagem da Justiça: significado. Disponível em: <http://www.matutando.com/imagem-da-justica-significado/>. Acesso em: 19/7/2013.

No corpo do texto:

(MARQUES, 2013)

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