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Aplicabilidade das Normas Constitucionais – José Afonso da Silva

Aplicabilidade das Normas Constitucionais.

Aplicabilidade das Normas Constitucionais. Livro clássico do douto jurista José Afonso da Silva.

Autor: Sebastião Fabiano Pinto Marques

Resumo

Trata-se de texto dissertativo que explica os conceitos constitucionais clássicos elaborados pelo douto jurista José Afonso da Silva, dentre eles: a) a eficácia das normas; b) as normas constitucionais de eficácia plena, c) as normas de eficácia contida e d) as normas de eficácia limitada. Este texto não substitui o magnífico trabalho elaborado pelo jurista,. Os interessados devem buscar a obra original disponível nas melhores livrarias.

Este trabalho acadêmico, mais do que conceituar; objetivou enfatizar a função prática da teoria para o sistema constitucional brasileiro. Principalmente as normas de eficácia contida que são reiteradamente desrespeitadas pelo Poder Executivo e Legislativo do Brasil.

Como citar este trabalho?

Nas referências bibliográficas:

MARQUES. Sebastião Fabiano Pinto. Aplicabilidade das Normas Constitucionais a luz de José Afonso da Silva. Trabalho de complementação de carga horária (Curso de Direito) – IPTAN, Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves. São João del-Rei, 2010.

No corpo do texto:

(MARQUES, 2010, p. 7)

Arquivo em PDF com a numeração de páginas original:

Aplicabilidade das Normas Constitucionais a luz de José Afonse da Silva. Clique aqui para baixar o arquivo em formato PDF.

INTRODUÇÃO

A aplicação das normas constitucionais é tema de grande importância na jurisprudência brasileira, pois a constituição não é mera norma de Direito, mas o fundamento que dá coerência e sustentabilidade lógico-normativa a todo o sistema infraconstitucional.

Nesse aspecto, a análise de José Afonso da Silva consubstanciada na obra Aplicabilidade das Normas Constitucionais tornou-se referência clássica e indispensável sobre o assunto. O autor, muito mais que divagar sobre aspectos abstratos das constituições em geral, dedicou-se exclusivamente ao estudo da aplicabilidade das normas na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

José Afonso da Silva sistematizou o assunto em vários tópicos, abordando a questão da aplicabilidade da norma nos planos jurídicos, social e lógico. Ele também explicou o conceito de eficácia e aplicabilidade e a conexão deles com a ideia de execução do conteúdo da norma tanto no plano fático, como lógico-normativo.

Tudo isso sem contar a já consagrada classificação das normas quanto a sua eficácia. Ponto de referência obrigatório para toda doutrina e jurisprudência brasileira. A saber: 1) normas constitucionais de eficácia plena; 2) normas constitucionais de eficácia contida e; 3) normas constitucionais de eficácia limitada. Sendo que essa última ele subdivide em subespécies.

1. A EFICÁCIA DAS NORMAS

José Afonso da Silva reconhece a existência de dificuldades terminológicas que dificultam o estudo científico da eficácia das normas constitucionais e sua aplicabilidade. Apesar disso, o autor deixa claro que o problema não é específico do Direito Constitucional, mas é decorrente da própria essência da ciência do Direito (SILVA, 2001, p. 63).

Para o ilustre autor, o sociologismo jurídico simplificou a questão da vigência no Direito por reduzi-lo a sua eficácia. Como exemplo, José Afonso da Silva cita o posicionamento de Evaristo de Morais Filho. Para o qual só é vigente o Direito que obtém aplicação no caso concreto, tanto individualmente para os homens, quanto para a sociedade em geral. Não podendo ser considerado vigente, portanto, o direito contido apenas na letra da lei, mas que não tem força para moldar a realidade (SILVA, 2001, p. 63).

Nesse aspecto, é prudente lembrar que a definição jurídica de eficácia distingue-se da sociológica, apesar de ambas serem essenciais para aplicação concreta das normas jurídicas. Na sociologia, a eficácia está ligada ao grau de cumprimento de determinada norma jurídica. Esse pode ser espontâneo, também chamado de eficácia primária ou de preceito, ou pode ser resultado da ação repressiva do Estado, também chamado de eficácia secundária ou da sanção (SABADEL, 2002, p. 64-65).

Já no Direito, a eficácia relaciona-se apenas com a aptidão da norma para produzir efeitos jurídicos. Enfim: é apenas possibilidade, não concretude. Aptidão não é sinônimo de garantia de que o direito será cumprido, nem espontaneamente, nem através de repressão do estado. A eficácia jurídica refere-se, portanto, apenas a capacidade da norma para produzir efeitos no plano jurídico, nada mais.

Por exemplo: A matou B. Em tese A realizou os elementos do suporte fático contido na norma do art. 121 do código penal (Matar alguém). Enfim: o fato é existente no plano jurídico. No entanto surgem outras questões que determinarão se o fato será ou não capaz de produzir o efeito jurídico esperado[1]. Quais? São elas: o agente era menor de idade? A pretensão punitiva do Estado está prescrita? O autor agiu com base em alguma excludente de ilicitude ou dirimente da culpabilidade? Se para qualquer dessas perguntas a resposta for sim, a norma do artigo 121 será ineficaz e, consequentemente, dela não decorrerá o efeito jurídico previsto.

Cabe observar que tal ineficácia é relativa, pois ela atinge somente os efeitos da norma do artigo 121 do Código Penal. Entretanto, em relação às outras normas que excepcionaram a aplicação do efeito jurídico do artigo 121, pode-se dizer que elas foram plenamente eficazes. Daí a relatividade do conceito de eficácia. No entanto, apesar dessa conceituação conferir rigor lógico e científico ao Direito, ela não é pacificamente aceita na doutrina (MELLO, 1997, p. 12). Isso não é novidade, pois no Direito tudo é controverso e as opiniões mudam conforme a natureza do interesse que está em jogo.

Entretanto, frise-se que a distinção dos conceitos de eficácia para o Direito e para a Sociologia é apenas didática, pois ambos são extremamente importantes para a aplicação da norma. Para o legislador, não é interessante criar normas sem nenhuma eficácia do ponto de vista sociológico, caso contrário, elas seriam inócuas. Do mesmo modo, as normas devem conter a eficácia jurídica sob pena de serem consideradas nulas quando o caso for levado ao conhecimento do Poder Judiciário.

Sendo assim, optou-se por seguir a posição de Marcos Bernardes de Mello. Ele entende que os fatos jurídicos só produzem efeito no plano da eficácia. Aí haverá as consequências jurídicas como a criação, a modificação, a alteração e a extinção de direitos. Nessa fase será discutido se o ato é nulo ou anulável[2].(MELLO, 1999, p. 82-83).

Apesar de todas essas distinções úteis, José Afonso da Silva entende que a questão não está claramente resolvida no plano doutrinário. Como exemplo, ele cita Kelsen que faz a diferenciação do conceito de vigência para o de eficácia do ponto de vista da teoria normativa. Segundo o jurista alemão, a vigência seria relativa ao dever-ser da norma (existência normativa), enquanto a eficácia se relacionaria mais ao ser da norma, enfim: sua realização concreta na sociedade. José Afonso da Silva observa que mesmo Kelsen admite a necessidade de um mínimo de eficácia como requisito indispensável para que norma jurídica possa ser vigente. (SILVA, 2001, p. 64-65).

Discussões doutrinárias à parte, José Afonso da Silva segue a definição clássica de eficácia jurídica de Marcos Bernardes de Mello.  Segundo essa teoria, a eficácia – diferentemente do conceito sociológico – relaciona-se apenas à capacidade da norma de produzir efeitos no plano jurídico.

Nesse sentido, José Afonso da Silva afirma não existir norma constitucional desprovida de eficácia. Segundo ele:

Todas elas irradiam efeitos jurídicos, importando sempre uma inovação da ordem jurídica preexistente à entrada em vigor da constituição a que aderem a nova ordenação instaurada. O que se pode admitir é que a eficácia de certas normas constitucionais não se manifesta na plenitude de seus efeitos jurídicos pretendidos pelo constituinte enquanto não se emitir uma normação jurídica ordinária ou complementar executória, prevista ou requerida (SILVA, 2001, p. 81-82).

Dessa maneira, desde que a norma seja capaz de produzir efeitos no mundo jurídico, ela será considerada eficaz, independente se ela regula a conduta individual ou social no caso concreto.

2. NORMAS DE EFICÁCIA PLENA

José Afonso da Silva afirma que a doutrina moderna tende a considerar que todas as normas constitucionais, mesmo as de conteúdo subjetivo, teriam eficácia plena (SILVA, 2001, p. 89).

No entanto, o autor alerta que a Constituição de 1988 manifestou forte tendência de conferir ao legislador ordinário a competência para regulamentar e integrar as suas normas (SILVA, p. 88-89)

Apesar dessa típica característica da Carta Magna brasileira, o autor ressalta que a maioria dos dispositivos da Constituição Federal de 1988 comporta normas de eficácia plena e aplicabilidade direta e imediata (SILVA, 2001, p.89).

O autor também afirmar ser difícil distinguir as normas de eficácia plena das normas de eficácia contida ou limitada. E, ressalta, que a solução desse problema delicado é muito importante do ponto de vista prático (SILVA, 2001, p. 91).

O primeiro a propor solução para a questão foi a Suprema Corte Italiana. Ela optou resolver o problema “caso a caso” (SILVA, 2001, p. 91). A corte italiana considerou normas fundamentais como as garantias sobre a livre manifestação do pensamento, a liberdade de imprensa e a irretroatividade da lei penal como de natureza programática. Período que coincide, ressaltamos, com a predominância da ideologia totalitária fascista na república italiana. Ideologia essa que causou a derrubada da monarquia na Itália, haja vista que os fascistas apoiavam abertamente a república.

Para José Afonso da Silva, a solução “caso a caso” para o problema da classificação das normas gera insegurança jurídica, pois causa muita incerteza no Direito (SILVA, 2001, p. 91-92), ainda mais em tão delicada matéria.

O autor defende, com ressalvas, a posição do jurista Piromallo que afirma que tal questão não pode ser decidida “caso a caso”, mas de uma só vez e definitivamente (SILVA, 2001, p. 93). No entanto, José Afonso da Silva não compartilha da solução dada por Piromallo que defende a tese de que as normas constitucionais obrigariam apenas o legislador.

Segundo José Afonso da Silva, tal solução acaba por inadmitir normas constitucionais de eficácia plena, pois, em tal hipótese, não haveria como obrigar o legislador a legislar devido a própria natureza do cargo. Em tal hipótese, todas as normas constitucionais não teriam aplicação caso o legislador se omitisse. Logo, é necessário que haja normas que tenham validade e aplicabilidade independente da ação do legislador sob pena de tornar inútil a própria existência da constituição. Assim, para José Afonso da Silva, Piromallo, ao invés de solucionar o problema, acaba por inadmitir a existência de normas de eficácia plena (SILVA, 2001, p. 93-94).

José Afonso da Silva ressalta que não há critérios únicos e seguros para distinguir as normas constitucionais de eficácia plena de outras, no entanto é possível estabelecer regras gerais sobre o assunto. Dentre elas, o autor destaca o critério da autoaplicabilidade. E, para tal, o autor adota a opinião de Ruy Barbosa: “Quando completa no que determina, lhe é supérfluo o auxílio supletivo da lei, para exprimir tudo o que intenta, e realizar tudo o que exprime” (BARBOSA, RUY, apud SILVA, 2001, p. 99).

Assim, José Afonso da Silva conclui:

Completa, nesse sentido, será a norma que contenha todos os elementos e requisitos para a sua incidência direta. Todas as normas regulam certos interesses em relação a determinada matéria. Não se trata de regular a matéria em si, mas de definir certas situações, comportamentos ou interesses vinculados a determinada matéria. Quando essa regulamentação normativa é tal que se pode saber, com precisão, qual a conduta positiva ou negativa a seguir, relativamente ao interesse descrito na norma, é possível afirmar-se que esta é completa e juridicamente dotada de plena eficácia, embora possa não ser socialmente eficaz. Isso se reconhece pela própria linguagem do texto, porque a norma de eficácia plena dispõe peremptoriamente sobre os interesses regulados (SILVA, 2001, p. 99).

Dessa maneira, o autor define as normas de eficácia plena como as que podem ser aplicadas imediatamente, independentes de posteriores normas infraconstitucionais que a detalhe, por já conter em si todos os elementos necessários para a sua aplicação imediata.

Como exemplo, José Afonso da Silva cita as seguintes normas da Constituição Federal de 1988:

  • “Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”.
  • “Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos”
  • “Art. 17. §4º É vedada a utilização pelos partidos políticos de organização paramilitar”
  • E outras normas: art. 77, art. 44, art. 45, art. 46 §1º, art 60, §3º, art. 76, art. 145 §2º e art. 226, §1º.

Assim, para o autor, as normas de eficácia plena são as que: a) vedam ou proíbem; b) estabeleçam isenções, prerrogativas ou imunidades; c) não indique órgãos ou autoridades especiais a quem cabe executá-las; d) não designem procedimentos especiais para sua execução; e) não necessitem que sejam elaboradas outras normas que completem seu sentido e alcance ou especifique seu conteúdo porque já são completas em si mesmas (SILVA, 2001, p. 101).

Dessa maneira, as normas de eficácia plena são as de aplicabilidade imediata porque possuem todos os elementos e condições necessários a sua plena execução.

3. NORMAS DE EFICÁCIA CONTIDA.

José Afonso da silva ressalta que o sistema de cotenção da eficácia das normas constitucionais tem por objetivo dar aplicabilidade aos fins gerais e sociais do Estado moderno. Assim, a limitação objetiva, primeiramente, a tutelar a liberdade de todos de tal maneira que durante o exercício do direito de um indivíduo não seja prejudicado o de outros (SILVA, 2001, p 114).

Assim, se está no âmago existencial do Estado tutelar a ordem pública, a segurança pública, a incolumidade das pessoas, fornecer a segurança nacional externa e interna e outros; tais princípios devem estar contidos na Carta Magna em normas cuja eficácia e aplicação estarão delimitados para que possam atingir o equilíbrio desejado pelo Estado (SILVA, 2001, p 114).

À medida que o tempo passa, verifica-se uma tendência maior do Estado buscar atender aos anseios sociais. Assim, observa-se a tendência dos fins sociais prevalecerem sobre o interesse individual. É justamente por esse aspecto, que segundo José Afonso da Silva, o Estado democrático de Direito se distingue do Estado liberal individualista (2001, p. 115). No entanto, ressalto: Democracia é um dos conceitos sobre o que mais tem se escrito e debatido. E também o que menos é compreendido na atualidade de modo que os pontos sobre ela aqui tratados expressam a opinião do autor e não a nossa sobre o assunto.

Entretanto, o autor afirma que o Estado Social e Democrático, por enquanto, é apenas uma meta, tendo vista que ainda prevalecem nas constituições modernas os preceitos liberais individualistas. Para José Afonso da Silva, a constituição de 1969, se comparada com a de 1967 e a de 1946, não realizou nenhuma democracia política devido à natureza das próprias restrições que ela impôs ao exercício dos direitos e liberdades fundamentais. Trata-se de comportamento típico do período histórico que temia o crescimento incontrolável do comunismo pelo mundo (SILVA, 2001, p. 115). Assim, adotaram o lema de que para “proteger a democracia”, era necessário “restringi-la”.

A Constituição de 1988 mudou essa visão. A ordem econômica estabelecida por ela é de caráter mais liberal. Ela protege a economia capitalista e restringe a eventual ingerência do Estado na economia, bem como a atividade econômica estatal, retirando o Estado, o máximo possível, do exercício direto das atividades econômicas a qual fica reservada para a exploração privada. Apesar disso, José Afonso da Silva ressalta que o elemento ideológico social é mais elevado na Constituição de 1988 devido à quantidade de direitos sociais que ela garante (SILVA, 2001, p. 114-115).

As normas de natureza contida, assim, têm atributos imperativos, positivos ou negativos que limitam o Poder Público. Enfim: em geral, elas estabelecem direitos subjetivos de indivíduos e entidades privadas ou públicas. A contenção da eficácia dessas normas consubstancia-se em limitações a tais direitos subjetivos e autonomias (SILVA, 2001, p. 115).

Eis a definição clássica de José Afonso da Silva sobre as normas de eficácia contida:

Normas de eficácia contida, portanto, são aquelas em que o legislador constituinte regulou suficientemente os interesses relativos a determinada matéria, mas deixou margem à atuação restritiva por parte da competência discricionária do Poder Público, nos termos que a lei estabelecer ou nos termos de conceitos gerais nelas enunciados (SILVA, 2001, p.115).

Enfim: para o autor, as normas de eficácia contida são aquelas que o legislador constitucional já normatizou o suficiente sobre o assunto, no entanto, deixou o legislador infraconstitucional com a faculdade de estabelecer restrições adicionais. No entanto, cabe ressaltar que a faculdade do legislador infraconstitucional de estabelecer restrições não é ilimitada. Ela deve observar, evidentemente, os limites impostos pelas próprias normas constitucionais.

Exemplo de norma de eficácia contida:

  • Art. 5º, XIII “É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.

Trata-se de norma de eficácia contida. O Legislador constitucional estabeleceu, em regra, a liberdade para o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão. No entanto, deixou o legislador infraconstitucional livre para estabelecer restrições quanto à matéria. Infelizmente, o legislador abusa dessa liberdade, estabelecendo restrições em demasia sob a desculpa de “profissionalizar a mão de obra”, quando na verdade, só favorece as máfias dos sindicatos, federações e instituições que vivem da contribuição dos membros. É compreensível o Estado impor limites para profissões de caráter crítico como as das áreas médicas e do Direito nas quais o erro do profissional pode matar o paciente ou restringir sua liberdade. Mas, que benefício traz para sociedade obrigar uma pessoa a ter faculdade de turismo para carregar malas de clientes em hotéis? Não seria isso um abuso normativo? Não seria mais prático deixar o mercado livre para selecionar quem se adapta melhor a tarefa? O que o Estado tem a ver com isso?

Atualmente, em tese, seria ilegal uma dona de casa cozinhar sem a supervisão de um cozinheiro e um nutricionista. Ambos devidamente sindicalizados, evidentemente. Até mesmo para fazer um simples artesanato, há leis impondo limites abusivos. Não é necessário ser um gênio para compreender que se tais normas forem rigorosamente cumpridas, elas inviabilizarão a própria existência da família, das relações sociais e do Estado. E, por isso mesmo, o legislador constitucional estabeleceu a limitação delas como exceção.

Nesse aspecto, pensamos que a regulamentação dada pelo legislador para as normas constitucionais de eficácia contida deve ser a mais restrita possível, pautando-se apenas pelo limite do absolutamente necessário para assegurar o exercício da liberdade de cada um em harmonia com os preceitos constitucionais. Qualquer normatização dada pelo legislador que vá além desse limite deveria ser considerada inconstitucional por exceder as restrições impostas pelo próprio texto constitucional. É inconcebível que o legislador, ao regulamentar um preceito de eficácia contida, traga mais restrições ao Administrado do que as já estabelecidas na Constituição ou que sejam absolutamente necessárias para evitar a afronta inaceitável de outras garantias constitucionais.

Entendemos que o preceito de eficácia contida serve, exclusivamente, para delegar ao legislador infraconstitucional o dever de compatibilizar o direito subjetivo do indivíduo ou entidade pública ou privada com as demais normas constitucionais. Não cabe ao legislador restringir a liberdade individual para atender demandas sindicais, nem para aumentar arrecadação Estatal ou qualquer outro fim estranho à compatibilização indispensável do exercício do direito com as normas constitucionais já definidas. Compreender o tema de modo diferente é permitir ao legislador infraconstitucional mutilar o mandamento fundamental até o ponto dele não ter mais eficácia nenhuma. Enfim: até o ponto da liberdade, regra geral do preceito de eficácia contida, perder toda sua razão de ser.

Por tudo isso, pensamos com convicção que os juristas devem dar mais atenção para as normas de eficácia contida a fim de combater a tirania do legislador. O legislador não é livre para fazer o que quiser em relação às leis. Ele deve obediência à Constituição. É requisito básico e indispensável para que a Democracia funcione que o Poder do Estado esteja contido por limites. Caso contrário, não há segurança jurídica, nem proteção para o cidadão. Portanto, se ao regulamentar às normas de eficácia contida, o legislador não for limitado, a própria Constituição será mutilada e, com ela, a Democracia (MARQUES, 2010).

Assim, recordamos que para José Afonso da Silva, as normas de eficácia contida têm aplicabilidade direta e imediata e não dependem da atividade legislativa infraconstitucional. No entanto, fica facultado ao legislador estabelecer limites. Trata-se de faculdade, enfim: possibilidade, não uma obrigação. Daí o nome de eficácia contida, enfim: a que pode ser limitada para que o preceito não se torne irrestrito (SILVA, 2001, p. 116).

No entanto, entendemos que o legislador não é livre para limitar a matéria do modo que ele “julgar melhor”, mas sua atuação deve ser a mínima possível, a absolutamente necessária para que a atuação individual ou institucional não torne ineficazes as outras normas da Constituição como um todo. Qualquer normatização que exceda esses limites, entendemos como abusiva, tirânica e inconstitucional.

4. NORMAS DE EFICÁCIA LIMITADA.

Segundo José Afonso da Silva, é difícil encontrar um termo apropriado para conceituar as normas de eficácia limitada. No entanto, apesar da imprecisão terminológica, mais importante que o uso de uma palavra determinada, deve ser a explicitação do sentido que ela expressa (SILVA, 2006, p. 118).

Assim o autor escolheu a palavra “limitada” para designar esse tipo de norma constitucional que ele divide em dois grupos:

a)    Normas Constitucionais de eficácia limitada definidoras de princípio institutivo ou organizativo ou normas constitucionais de princípio institutivo;

b)    Normas Constitucionais de eficácia limitada definidoras de princípio programático ou normas constitucionais de princípio programático.

José Afonso da Silva atenta para a diferenciação que deve ser feita entre normas constitucionais de princípio institutivo, normas constitucionais de princípios gerais e princípios gerais do direito constitucional.

As normas constitucionais de princípio institutivo ou organizativo contém apenas o começo, o esquema geral de determinado órgão, entidade ou instituição. A efetiva criação, organização ou estruturação fica a cargo de normatização infraconstitucional na forma prevista pela Constituição. Como exemplo, cita-se art. 33 “A lei disporá sobre a organização administrativa e judiciária dos territórios” (SILVA, 2006, p. 119).

As normas constitucionais de princípios gerais ou normas-princípios são as normas fundamentais das quais as outras são apenas desdobramentos. Como exemplo, o autor cita o caput do art. 1º da Carta Magna e o art. 2º (SILVA, 2006, p. 119)

Os princípios gerais do Direito, diferentemente, informam toda ordem jurídica nacional. Por exemplo, princípio da isonomia – art. 5º, inc. I; princípio da legalidade – art. 5º, inciso II; princípio da irretroatividade das leis – art. 5º, XXXVI (SILVA, 2006, p. 119).

Pensamos que a diferenciação dada por José Afonso da Silva entre os princípios gerais de Direito e as normas constitucionais de princípios gerais/normas-princípios é confusa porque tanto um quanto outro informam toda ordem jurídica e de ambos derivam desdobramentos.

Pensamos que a maneira mais prática de diferenciar os dois conceitos é compreender que as normas constitucionais de princípios gerais é o resultado de séculos de estudos sobre a própria natureza do Direito e do Estado de Direito democrático. São normas absolutamente necessárias para existência do Estado de Direito. Sem elas, ele se torna inconcebível. Princípios como o da Legalidade, o da Isonomia, o da Irretroatividade das Leis, o da Dignidade Humana, o da Liberdade de Pensamento, o da Liberdade religiosa, o da Liberdade de ir e vir e outros são o mínimo fundamental para que um Estado de Direito possa existir. Sem eles, não há Estado de Direito.

Já as normas constitucionais de princípios gerais ou normas princípios são escolhas políticas da sociedade feitas através do legislador. Elas especificam princípios fundamentais que informam toda ordem constitucional, mas elas não são indispensáveis para existência do Estado de Direito. O Estado de Direito democrático independe delas para existir. Por exemplo: a norma que especifica que o Brasil é uma república e que segue o modelo federal, art. 1º.

O Brasil poderia ser uma monarquia e, simultaneamente, ser um Estado de Direito democrático como é a Dinamarca, a Noruega, a Espanha, o Canadá, a Inglaterra, a Austrália, a Nova Zelândia, a Suécia, a Holanda e outros reinos. No entanto, o legislador constituinte escolheu a república e o povo a referendou em 1993 através de um polêmico[3] plebiscito. Poderíamos ser um Estado unitário ou criar um modelo próprio, mas o legislador optou pela forma federativa. Poderíamos eleger e sermos eleitos livremente para os cargos eletivos da nação, mas o legislador escolheu a organização partidária, art. 14º.

O Art. 14º é um ponto crítico pouco questionado em nossa Constituição. Ele monopoliza o exercício do Poder na mão de grupos, os partidos políticos. Eles são os únicos que podem escolher os candidatos para os cargos eletivos de nossa nação. Tal fato é um golpe duro contra a Democracia no Brasil e coloca nosso país no rol das oligarquias. O tema foge ao assunto deste trabalho. Por isso, recomendamos aos interessados que leiam o que já publicamos a respeito (MARQUES, 2010).

Assim, entendemos que as normas constitucionais de princípios gerais ou normas-princípios diferenciam-se dos princípios gerais constitucionais por serem escolhas políticas do legislador constituinte. Escolhas não essenciais para a formação do Estado de Direito.

As normas constitucionais de princípio programático são esquemas genéricos que destacam programas a serem desenvolvidos posteriormente pelo legislador infraconstitucional (SILVA, 2006, p. 137). Apesar da dificuldade de receberem precisão de conceito, José Afonso da Silva, assim as define:

Podemos conceber como programáticas aquelas normas constitucionais através das quais o constituinte, em vez de regular, direta e imediatamente, determinados interesses, limitou-se a traçar-lhes os princípios para serem cumpridos pelos seus órgãos (legislativos, executivos, jurisdicionais e administrativos), como programas das respectivas atividades, visando à realização dos fins sociais do Estado (SILVA, 2006, p. 138).

As normas constitucionais programáticas apesar de terem eficácia limitada, impõem limites e restrições aos sujeitos que elas se dirigem, e, portanto, exercem importante papel na ordem jurídica e no regime político do Brasil (SILVA, 2006, p. 139).

A constituição possui vários exemplos desse tipo de norma. Podemos encontrá-las no art. 21, IX; art. 48, IV; art. 184; art. 211, §1º; art. 215; art. 216, §1º; art. 170; art. 196 e outros. Observe que as normas em questão têm por objetivo dispor sobre os interesses sociais e econômicos: justiça social, valorização do trabalho, existência digna, prevenção do abuso do poder econômico, desenvolvimento econômico, intervenção do Estado na economia, assistência social, combate à falta de educação, amparo à família, estímulo à cultura e outras (SILVA, 2006, p. 149-151).

A introdução dessas normas são resultado do conflito de interesses que estavam em vigor na época da redação da Constituição e suas emendas e elas tendem a instaurar um regime de democracia real, menos formal com objetivo de forçar o Estado a atuar no sentido de elaborar programas e agir na direção apontada pelas normas programáticas (SILVA, 2006, p. 156).

Assim, as normas programáticas indicam para legislação infraconstitucional um caminho a seguir. Elas podem não obrigar o legislador a normatizar no sentido apontado por elas, mas pelo menos, com certeza elas obrigam que ele não legisle em sentido contrário.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após estudarmos a classificação das normas constitucionais segundo José Afonso da Silva pudemos perceber que não se trata apenas de uma mera classificação teórica que o autor elaborou através da análise das normas contidas em nossa Carta Magna.

Trata-se de fato de uma classificação prática cujo maior objetivo é garantir a aplicação das normas constitucionais no caso concreto, ampliando, assim, a eficácia das normas fundamentais ao máximo.

As normas de eficácia plena evitam que a inércia do legislador prejudique a ordem constitucional vigente e dá plenas condições para que o judiciário extraia delas a máxima aplicação no caso concreto. Enfim: é uma forma de dar eficácia plena e imediata a conteúdos normativos constitucionais de natureza essencial e fundamental que poderiam ficar seriamente prejudicados se dependessem da boa vontade do legislador infraconstitucional para entrarem em vigor.

As normas de eficácia contida também possuem eficácia plena e imediata e independem da boa vontade do legislador para terem aplicação no caso concreto. No entanto, elas permitem que o legislador faça restrições ao exercício do direito tutelado a fim de garantir que os interesses individuais e coletivos, sejam públicos ou privados, não conflitem com outras garantias constitucionais.

A nosso ver, o legislador infraconstitucional, em relação às normas de eficácia contida, deveria estabelecer apenas a restrição mínima necessária para evitar conflito da norma em questão com outras garantias constitucionais. No entanto, no Brasil, o legislador adotou uma postura super-restritiva. Enfim: o legislador foi e geralmente vai muito além do que é minimamente necessário para alcançar tal fim. Até o momento, tal postura não comoveu o Poder Judiciário, nem a doutrina sobre a necessidade de combater tal abuso cometido pelo Poder Legislativo. A consequência de tal omissão é óbvia: o esvaziamento da função constitucional das normas de eficácia contida.

Já as normas de eficácia limitada e as normas programáticas, apesar de não terem aplicação imediata, determinam a direção básica, os princípios e as finalidades que o legislador infraconstitucional deverá seguir necessariamente sob pena de violar a ordem constitucional vigente e, em tese, perderem sua eficácia em consequência.

Enfim: todos os tipos de classificação das normas constitucionais feitas por José Afonso da Silva têm um papel claro dentro do ordenamento jurídico: o de limitar a ação do legislador infraconstitucional e, por conseguinte, garantir a máxima eficácia e aplicação das normas estabelecidas na Constituição.

As normas constitucionais de eficácia plena evitam que a omissão do legislador coloque a ordem constitucional em risco por falta de eficácia de garantias fundamentais indispensáveis a existência do ordenamento jurídico que estabelece o Estado de Direito. As normas constitucionais de eficácia contida deveriam limitar a tendência do legislador de abusar de sua prerrogativa e, consequentemente, restringir mais do que o necessário para coexistência de todas as garantias e Direitos proclamados pela Ordem Constitucional. Já as normas de eficácia limitada e as normas programáticas deveriam limitar o legislador para que ele atuasse somente dentro da direção já apontada por elas.

REFERÊNCIAS

SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. 5.ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2001.

SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 24.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004.

SABADELL, Ana Lúcia. Manual de Sociologia Jurídica. 2.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.

MARQUES, Sebastião Fabiano Pinto (2010). O que é Democracia. Conceito, definição e significado. Disponível em: <http://www.matutando.com/o-que-e-democracia-conceito-definicao-significado/>. Acesso em: 04/04/2013.

MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico: Plano da Existência. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico: Plano da Validade. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 1997.


[1] Neste exemplo, o efeito jurídico do fato é submeter o autor a pena de 6 a 20 anos de reclusão conforme preceitua o próprio artigo 121 do Código Penal.

[2] Nulo: diz-se do ato que não pode produzir efeitos jurídicos por ser contra a lei, a ordem pública e os princípios superiores que regulam o direito. Anulável: é o ato praticado em desconformidade com a lei, mas que pode ser consertado e, consequentemente, tornado eficaz. Para definições mais precisas, recomenda-se consultar a obra “Vocabulário jurídico” do autor De Plácido e Silva já citada nas referências. (SILVA, 2004)

[3] Diz-se polêmico porque: 1) o plebiscito misturou a escolha da forma de governo (monarquia ou república) com a forma de Estado (parlamentarismo ou presidencialismo). 2) depois de mais de 100 anos de ensinos escolares ininterruptos de que a “república era boa”, a “monarquia má e totalitária”, o governo propôs um “plebiscito democrático” e perguntou ao povo se ele queria a república ou a monarquia. Evidentemente, o povo escolheu república. Ora! Até 1988 era crime defender a monarquia no Brasil. Havia impedimento constitucional. Não era sequer permitido publicar livros a respeito do tema. Não passava pela censura. Enfim: nem os pesquisadores sabiam o que era isso. Ademais, o conhecimento que se tinha do período monárquico no Brasil era repleto de preconceitos e ranço republicano. Basta ver o filme “Carlota Joaquina” que não deixa dúvidas sobre essa visão limitada. Num cenário desses, de repente aparece uma consulta popular cujo objetivo era dar legitimidade para o que nasceu com um golpe militar sanguinário em 15/11/1889. O povo não tinha como escolher e prova disso é que o povo optou pelo presidencialismo, a forma de estado menos eficaz para combater a corrupção, o totalitarismo e reduzir a miséria humana. É estatístico. 4) Jogo sujo dos deputados. Até 1993 era pacífico que a família Orleans e Bragança na pessoa de Dom Luiz de Orleans e Bragança era o legítimo herdeiro de Dom Pedro II como já reconhecido de longa data pela família real de várias outras nações. A câmara dos deputados do Brasil propôs, ao invés de Dom Luiz, Dom João Henrique como sucessor, violando o reconhecimento internacional e causando divisões dentro do pequeno movimento monárquico no Brasil. Evidentemente, a divisão enfraqueceu o movimento monárquico nascente. Logicamente, os políticos sabiam disso e assim o fizeram de propósito. 5) O STF proibiu os príncipes de aparecerem na televisão. Os maiores conhecedores da monarquia, os príncipes, não puderam falar na TV por ordem do STF, o que, evidentemente, foi uma censura desleal, contra a propaganda monárquica, pois a figura principal de uma monarquia é o Rei. Por tudo isso, diz-se que o plebiscito de 1993 é polêmico e questionável.

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1 comentário

  1. Jesimiel Costa

    Que ótima explanação!! parabéns! você fez um comentário minucioso e detalhado.

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